Leia dois poemas de Paul Laurence Dunbar

Leia dois poemas de Paul Laurence Dunbar

Paul Laurence Dunbar (1872-1906) foi poeta, romancista e dramaturgo, voz expoente e seminal da virada do séc. XIX na literatura estadunidense. Filho de pais escravizados no Kentucky, Dunbar começou a escrever histórias e versos ainda criança e publicou seus primeiros poemas com 16 anos em um jornal de sua cidade. Sua poética captou a dualidade da experiência negra pós-abolição com sensibilidade e uma força sutil, pueril. O livro de poemas Canções de Sol e Sombra (Lyrics of Sunshine and Shadow) foi a sua última obra publicada, em 1905, um ano antes de sua morte por tuberculose, aos 34 anos. Leia dois poemas desta obra, traduzidos pelo escritor e tradutor Henrique Fatel:

 


Tô ficando cansado do jeito da gente viver,
Com a fé deles na lareira e no fogão a lenha;
Sempre aparece um problema pra virar o espeto,
E não tem remédio que faça a braza boa queimar.
Se o inhame dourado e a batata doce afiou
Com a goiabada guardada a gente é de se consolar;
Quando a geada chega soprando, é desejo do Mestre,
O Senhor cuida do inverno e mamãe cuida do fogo.

Não tenho medo do vento que ruge,
Nem me abalo quando vem cortante;
Deixe ele gastar o fôlego; grite e uive,
É quando os galhos caem e a lenha miúda surge.
Quando a tempestade ronca e a telha estremece,
É quando a lareira crepita acolhendo a gente.
Não é da minha conta me preocupar por pouco,
O Senhor cuida do inverno e mamãe cuida do fogo.

O bolinho de cinza sempre fica dourado em fevereiro
Como em qualquer outro mês do ano;
O toucinho cheira convidando, o tacho canta e balança,
No inverno igual na primavera;
Não adianta ficar cabisbaixo, carrancudo e mocho
Por causa do inverno, que é coisa certa de vir;
E se é pra cuidar de tudo, eu me recolho,
O Senhor cuida do inverno e mamãe cuida do fogo.

 

 

Conselho


Quando apertar o aperreio 
  Com trabalho e riqueza,
Se o vizinho alcança
  E a inveja te adoeça;
Se o sorriso falso do colega
  Teu peito fere e peleja —
Não alimente a preocupação,
  Deixe-a na prateleira.
Cuide um pouco de si, irmão,
  Cuide um pouco de si.

Se um amigo peleja
  Com seu fardo pesado,
Não lhe entristeça
  Com teu olhar cerrado;
Lute com ele, acolhe e tenta,
  Mesmo com cara tensa —
Sorria até doer!
  Não és igual a ele?
Cuide um pouco de si, irmão,
  Cuide um pouco de si.

Se os filhos ralham,
  O bebê apronta,
Se a esposa fica nervosa,
  E tua paciência esgota —
Segura as tiras das botas,
  Prende o corpo inteiro,
Cala os palavrões na garganta,
  Afugenta o zangueiro.
Arranca a cabeça da preocupação,
  Até não restar nada!
Cuide um pouco de si, irmão,
  Cuide um pouco de si.

 

 

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