Leia um conto de "Amores Noturnos"

Leia um conto de "Amores Noturnos"

A pele

Jonathan Pazzoto

 


nada me alcança além desse lugar
: o corpo.

Celebrar a lâmina, Luíza Benamor

 

 

     Mamoon Azam, personagem fictício do romance A última palavra, de Hanif Kureishi, a certa altura do livro diz a seu interlocutor: 
     “De fato, o corpo de uma mulher jovem é o objeto mais significativo do mundo, admirado e desejado por homossexuais, é claro, bem como por outras mulheres, bebês, lésbicas, crianças, estilistas de moda e homens. Não admira que os muçulmanos escondam a mulher como uma imagem sórdida, enquanto seus fundamentalistas nos fazem lembrar que a sexualidade feminina é o maior de todos os problemas. Para essas pessoas, a mulher já é uma prostituta. Eles têm razão de ficar tão preocupados”, prosseguiu. “O corpo de uma jovem ocupa o centro do mundo e, em geral, o centro da maioria das eleições— aborto, mães solteiras, licença-maternidade, prostituição, incesto, abuso, o hijab... A mulher está no lugar de onde todos viemos e para onde todos desejamos ir. O corpo da mulher faz o conhecimento desaparecer.”
     Não posso dizer que discordo de suas palavras.

     Como pode uma mulher ficar por tanto tempo dentro da minha cabeça? Como pode fazer meu mundo virar de cabeça para baixo de tal forma?
     Nunca menosprezei a importância de um corpo jovem, sempre tratei da seguinte forma, se esse corpo não me quer, haverá muitos outros que poderei ter. Dinheiro compra, se não a todos, a maioria das pessoas. Seus corpos.
     Uma mulher em busca de uma vida melhor ou muita riqueza, sinceramente, não é difícil de encontrar, eu sempre estive cercado de oportunistas. E eu sempre desejoso de seus corpos, sua pele macia e jovem. Talvez uma flor impenetrada. Quando meu corpo pede por mais.

     Devo admitir, enlouqueci algumas mulheres durante minha vida. Ou será que elas me enlouqueceram, à medida que sua neurose me afetava diretamente? Pode ser que eu me considere melhor do que realmente sou, me superestime.

     Passageiro ou eterno em suas vidas? Elas nem mais se lembram de mim. Preferiram a loucura a mim. E são todas loucas, as mulheres. Quando não conseguem o que querem são capazes das mais terríveis vinganças. Estive no centro dessas vinganças uma dezena de vezes, mas sempre silenciei todas. Pouquíssimas coisas o dinheiro não compra.
     Mas não compra um corpo jovem. Um corpo para que eu resida.
     Por isso minha tendência em dominar os corpos femininos. Eles são livres, de uma liberdade que nenhum homem jamais experimentou. São?

     Como é possível que ela nunca me tenha dado uma única desviada de olhar?
     Como é possível que um homem que chegou na posição em que me encontro não possa simplesmente tomar o que quer, da forma como quer?
Se em algum momento eu decidir ser dono de seus gostos e preferências, deveria ter esse poder.

     Às vezes eu paro e a observo por longos minutos. Sou capturado por um transe inexplicável e delicio-me na visão de suas costas, seu quadril firme, sua elegância natural e sua bunda. Logo me cresce o terror entre as pernas, sou tomado de um calor e de um desejo que quase não consigo manter dentro do meu corpo. Para que se quebre o transe tenho de me movimentar, sair para tomar um copo de água, um ar. Conversar com alguém, ou até mesmo colocar-me em alguma situação em que esteja frente e frente com um número razoável de pessoas. Para que meu corpo entenda que não é hora de se deixar levar pela luxúria. Mas ela sempre está lá. Ela, seu corpo flutuante e sua bunda incrivelmente apetitosa.

     Sou um aficionado [e não estou exagerando] por bundas. Acho-as deslumbrantes, a coisa mais impressionante do corpo humano. Da natureza humana. Há algo de mágico em todas as bundas, algumas são inexplicavelmente agridoces, um tanto sem graça. Outras são abjetas, não estimulam e não suscitam qualquer tipo de desejo. E outras, ah, essas outras, são absolutamente inesquecíveis. Despertam todo tipo de sensação deliciosa em nosso corpo.
     A bunda dela é especialmente magnífica. Para cada olhar que lanço sobre suas deliciosas nádegas dançantes sinto-me um outro homem, capaz de conquistar todo o planeta com punhos de aço. Tal qual os maiores conquistadores da história, subjugar seu corpo, sua boca, sua voz, seus desejos, sua bunda, suas certezas e fazê-la minha posse. 

     Minha Lolita de maravilhoso corpo. Minha Lucrécia, minha Ofélia, minha Capitu, minha Nastienka. Minha Dulcineia dos sonhos! Como amo pensar em você e compará-la! Como amo pensar em você como uma personagem dos sonhos!
     Se eu tivesse também um corpo jovem, poderia, quem sabe, tocar sua pele, sentir seu cheiro, seu sabor.

     Ter este corpo velho não faz justiça à potência que sinto. A vontade de dominar tudo e todos ao meu redor.
     O corpo é a principal ferramenta. Sem ele não somos nada. Nenhum poder no mundo subjuga o corpo. A morte.
     Será que estou me contradizendo?

     O dinheiro é o meu refúgio para nunca assumir meus próprios pensamentos e ações. 

     Em outro livro, em um conto intitulado O corpo também de Kureishi, o narrador diz:
     “O corpo é o primeiro playground de toda criança, e suas primeiras experiências são de caráter sensual. Não demora muito para que elas aprendam que podem conseguir coisas de outros corpos: leite, beijos, mamadeiras, carícias, tapinhas. As mãos das pessoas são úteis para isso, assim como são também na exploração dos numerosos buracos presentes nos corpos, buracos dos quais, queira-se ou não, saem substâncias diversas: suor, merda, sêmen, pus, hálito, sangue, saliva, palavras. Nesses buracos podem-se enfiar coisas também, se é o que se deseja.”
     Em outra passagem:
     “Os corpos são diferentes uns dos outros, mas todos têm uma coisa em comum: são incontroláveis. Corpos fazem muitas coisas involuntárias, como chorar, espirrar, urinar, crescer ou se excitar, logo se descobre que eles podem sentir atração ou repugnância por outros corpos, mesmo – ou em especial – quando não querem que isso aconteça.”
     Leiam o conto, o romance. Entendam o que digo. Refletir sobre a finitude deste monte de lixo que carrego é até que estimulante. Tanto peso para me deixar na mão depois de tantos anos.

     Evidentemente ela não olhará para mim. O ressentimento me dominará até eu ter a certeza de que a única alternativa para o fim do meu sofrimento seja matá-la. Não, eu jamais teria forças para matá-la. Que grande besteira!
     Antes uma viagem, uma longa viagem ao norte da África, as boas regiões da Ásia. Às praias paradisíacas do Brasil. Antes um harém cheio de moças de 16 anos. Antes um fim tranquilo e calado diante de homens impacientes para que eu morra de uma vez. Antes suportar e por que não, aproveitar o restante tempo que meu corpo estiver de pé. Antes de pensar ou fazer qualquer absurdo, que eu esqueça de uma vez por todas que, de fato, nem tudo o dinheiro compra neste mundo.
     Sim, eu tenho uma esposa. E ela me entende. Coitadinha, entende o que consegue entender. Faz de tudo por meus desejos. Me serve, me completa.
Uma outra vez, eu peço. Eu suplico para que não pare. Em pouco tempo estou jogado no chão, implorando. Me humilhando para que ela pise em mim. Para que ela diga todas as palavras que eu espero ouvir. São algumas palavras que escrevi numa folha de caderno pautada e lhe entreguei. Porque sempre fui um covarde. Ela de certo leu e agora me considera o mais perdido dos homens. Que meu desejo por isso é muito maior do que ela jamais viu em toda sua vida. E ela não estará errada, eu sou insaciável! Ela sabe ler bem e eu estou disposto a ser humilhado sempre que assim for necessário. 
     Ela já até desenvolveu suas próprias práticas, que eu adoro ouvir e experimentar. Seu corpo é impressionante. Não a comprei com dinheiro, ela me ama. É fascinante o que as pessoas fazem por amor. Como entregam seus corpos aos cônjuges. Como entregam sua vida aos seus caprichos. Ela será minha esposa para o resto da vida. Mas jamais será a musa dos meus sonhos. Jamais será a jovem do corpo inalcançável. 
     E, sim, eu sou patético.
     Como posso imaginar que posso comprar sua juventude? Devorado pelo meu próprio corpo que corrói meus restantes dias. Almejando outro corpo, que jamais possuirei. Olhando-me no espelho, fraco, imóvel diante da impossibilidade de posse. De uma resposta à altura. E ela indiferente. Absolutamente dona de si e de sua juventude. E eu falho, devorado pelos meus próprios pensamentos.

     Ela jamais precisou me negar qualquer coisa. Meu corpo fez isso por ela.
     O problema é a pele. Não a dela, a minha. É ela, silenciosa e vingativa, que me derrota. 

 

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