Leia o primeiro capítulo de "Uma Flor de Pertúrbia"
Leia o primeiro capítulo de "Uma Flor de Pertúrbia"
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máquina de imaginar segredos; nêmesis do afeto. te mato de amor. a busca pela metade na descida infernal da memória. a metade é memória. a descida, a escada é cheia de quadros enquanto o futuro te olha abismado porque não tocas o teu pão de queijo. a avalanche de palavras desconectadas. tento agarrar a planície fria do porcelanato enquanto o céu puxa para cima. isso não é natural. é assustadoramente intenso existir. como um corpo que nasce de outro corpo. o cheiro da carne queimando. tá sentindo, raquel? é a carne do vizinho.
a poluição é demais. morte, instagram, palavras, imagens do trânsito. deixei de lado um sonho. o mais importante. salomé oferecia a bunda na minha cara quando lembrei dos desmanches da juventude. o olho realiza a edição das imagens viciantes. espelho familiar. contracenar o supérfluo, responder de acordo e apaziguar o fantasma da solidão. antes o vazio que o frio, raquel. talvez vícios mantenham sanas as pessoas insanas. a repetição da imagem gozando com a crítica construtiva. a enganação. até as flores distorcidas gritam à sombra de algum desejo, sabe? como descascar as infinitas camadas das projeções? a autoflagelação cristã. a imagem não é inocente! depois de ser trauma, depois de ser resposta, é reflexo de autodestruição ou cura? acontece na nuca. é tanta resposta na imagem que constrange, mas não aniquila ninguém. sopra as feridas e esquenta; alivia e sustenta o encantamento de quem sente tanto o tempo todo, como um saco que se carrega arrastando. não mata, não suicida ninguém. voyeurismo psíquico. difícil perceber os tentáculos subliminares da imagem. imagem, rabisco, cheiro e lembrança. como não substituir por outra farsa, outro roubo, outra história terrivelmente grega? quando eu era louca, pelo menos era livre, raquel! diria até espontânea, mas toda louca é corajosa, não é?
por que não escrevemos um livro, raquel!? raquel! algo mágico! algo útil! antenas que captam a voz dos espíritos e das notícias de amanhã! não parece genial? é lúdico e interessante como os vagalumes! algo para receber os anseios e derrubar as armaduras do eu gigante que caga na cabeça da gente.
salvar as crianças coadjuvantes que organizam os horários entre o fazer algo e o não fazer nada. uma versão inventada, raquel. algo útil! uma história do antes e depois do inferno que nos uniu. a retomada de um país despedaçado, cortado ao meio com uma navalha, onde as paixões enrustidas inundaram as ruas de sangue. até sinto o sol a pino na minha cara! queimando como a esperança!
não me dou respeito, raquel! nada! me humilho até esse horário. não consigo segurar minha boca, minha roupa! já dizia dercy gonçalves! o que adianta querer dar o coração para um homem quando a outra já chega dando o cu! capaz que me ligue e eu deixe entrar com duas latinhas de brahma. nem brahma chopp é! não sei ser diferente! não me controlo. precisei ser violenta! tenho certeza que sim! não tenho, raquel? olha! sempre esbarro nas coisas, agora é diferente. a iluminação importa. tenho medo de espirrar e fazer xixi. e se eu cuidar demais? e se eu não cuidar de nada?
no sonho estávamos em um mesmo acidente de avião e éramos os únicos sobreviventes em uma cidade abandonada, onde só tocava música de filme com final feliz. as nuvens eram baixas e nos protegiam dos animais selvagens que comiam as plantinhas que brotavam de surpresa nas calçadas. um mato bonitinho. acordei sentindo o cheiro das nuvens. não eram algodão-doce, mas pareciam névoa. uma névoa doce. e se eu contar a história de outro jeito? se a loucura é sempre verdade para o louco, posso ter uma história verdadeira pra mim. o segundo passou e já percebo como o meu próprio segundo e pronto. e digo que foi assim. uma tarde de uma ventania quente e forte. céu azul-escuro muito pertinho da noite. a calçada torta refletia as batidas do meu coração nos dedos do pé. era tanto barulho que embaralhava as palavras dentro da boca. antes tivesse acabado ali.
raquel! não me deixe distraída! por pouco transformo nossa história em uma história de amor, que de amor não tinha nada, tenho certeza. não creio que é possível suportar outra história de herói.
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