Leia o conto "A dama do cais do porto"

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A DAMA DO CAIS DO PORTO

Igor Pires Leon

 

     Ele me esbofeteou e em seguida cuspiu em meu rosto. Chamou-me de puta e o caralho a quatro. Vestiu-se com dificuldade, estava bêbado como um porco; jogou o dinheiro sobre a cama e disse em voz alta para esperá-lo, que no dia seguinte voltaria. Recolhi o dinheiro amarfanhado e contei. O valor estava certo, nem mais nem menos, cinquenta reais. Lavei o rosto, enxaguei a boca com água e sabão para tirar o gosto de porra que ficara. Olhei-me no espelho, o rosto marcado pela bofetada; não foi a primeira e nem seria a última. Passei um pó para disfarçar, ajeitei os cabelos e voltei para a rua, para a lida. 
     Noite quente, estrelada, trabalhadores do porto com bolso cheio, salário recebido. Parei em frente ao Candeias, um bar onde costumava atrair meus clientes. Entrei, ouvi assobios, gracejos. As outras garotas me olharam com inveja, eu sabia que era a predileta deles. Sentei-me numa mesa junto com alguns conhecidos, velhos clientes. Tomei um copo de cerveja. Olhei em volta, havia gente nova, estrangeira. Avistei um jovem que aparentava uns vinte e poucos anos, alto, bonito, pele clara, contrastando com a minha pele morena. Aproximei-me com um sorriso, um cigarro apagado entre os dedos, perguntei-lhe se tinha fogo; ele não falava português, era alemão. Insinuei-me, ele riu sem jeito, era tímido. Ele finalmente acendeu o cigarro, pedi uma bebida e que colocasse na conta do “gringo”. Um copo de vinho suave. Gosto de vinho suave, bebida barata; não estou acostumada com as caras, as boas. 
     Olhei para o rosto daquele rapaz que me lembrava muito meu primeiro cliente, quando eu ainda era uma estudante de sociologia lá no Recife e resolvi pesquisar a vida das putas do cais do porto. Eu queria muito mais que uma entrevista, eu queria sentir os mesmos perigos, os mesmos medos, os mesmos prazeres que elas sentiam, tudo para dar mais credibilidade ao meu trabalho de campo. Combinei com uma das entrevistadas que eu passaria por uma delas para entender a cabeça dos clientes, seus gostos, suas taras. 
     A primeira noite eu estava com medo, quase arrependida do que estava fazendo, com medo que meu marido e minha família descobrissem. Loucura! Mas lá estava eu, com um vestido justo e curto, os seios quase à mostra. Os clientes foram surgindo, tripulantes de uma embarcação estrangeira, de bandeira norueguesa. Conversavam em sua língua com as meninas, que sorriam para aqueles homens sedentos de sexo. Foi aí que apareceu o tal sujeito, o meu primeiro cliente. Tremi na base, fiquei sem chão. Ele disse algo em sua língua, que depois fui entender que se tratava de holandês. Abri um sorriso, meneei a cabeça. Ele fez um gesto de quanto custava o programa. Respondi em inglês o quanto custava. Passamos a nos falar em inglês e o rapaz disse que gostaria de fazer um programa comigo. Engoli seco. Procurei pela garota que estava entrevistando, mas ela estava se dirigindo para o hotel com um dos marinheiros. Pensei em recuar, mas minha ambição, a minha determinação falaram mais alto. Apanhei o holandês pela mão e o levei para o hotel. Lembrei-me que as meninas disseram que os estrangeiros eram melhores porque pagavam bem. O hotel era uma espelunca, um lugar imundo, de virar o estômago. O rapaz pagou antecipado pelo quarto, como era de praxe. Enquanto nos encaminhávamos para o quarto no andar de cima, subindo por uma escada estreita que rangia a cada passo, o rapaz segurou minha bunda com força. Tive ganas de me virar e esbofetear aquele sujeito, mas eu não fiz, afinal eu era uma puta e como puta tinha de suportar tudo. Engoli meu orgulho. Entramos no quarto, quero dizer, mal entramos no quarto, e o marinheiro já foi me abraçando por trás, me tirando a roupa. Elogiou meu corpo, meus seios empinados, minha bunda arrebitada. Logo vi o efeito que lhe causou. Suas mãos percorreram meu corpo, meu sexo. Senti seus dedos na minha vagina, sua boca em meus seios. Ele puxava meus cabelos. Eu estava gostando, sentindo prazer. Ele queria sexo oral e eu fiz, sem camisinha, sem nada, sem pensar nas consequências que aquele ato tresloucado poderia acarretar. Ele queria sexo anal, eu fiz. Fiz tudo que aquele cara quis. Me entreguei como nunca havia feito ao meu próprio marido. Naquela noite o marinheiro não foi o único, tive mais quatro encontros e fiz tudo o que me pediram. 
     Tinha material suficiente para minha tese, dividi o dinheiro que havia ganhado naquela noite com as outras meninas do cais e voltei para casa exausta, quase ao amanhecer. Meu marido sabia do trabalho que estava fazendo com as meninas do cais, mas não como eu estava fazendo. Voltei na noite seguinte e nas outras noites subsequentes, me entregando aos marinheiros, aos funcionários do cais do porto. E a cada noite eu gostava mais e mais do que fazia, me sentindo livre, uma depravada, com um desejo cada vez mais intenso para me entregar àqueles homens brutos. Cada noite era uma noite de prazer; cada cliente era uma doce experiência. Marinheiros de diversos países, homens sujos, limpos, feios, bonitos, cada qual com sua preferência. Experimentei de tudo, até mesmo drogas, das mais leves às mais pesadas. Abandonei meu marido, meu filho, minha família, todos os meus projetos de vida. Tornei-me uma das damas do cais. Apanhei, fui roubada, inúmeras vezes me cuspiram na cara. Fui morar com uma garota, a Shirley, mas não fiquei muito tempo, pois logo conheci um sujeito que eu pensava ser gente boa, mas era um escroque que só queria me explorar. Certa noite, quando o filho da puta estava dormindo, apanhei minha navalha e cortei-lhe o que ele tinha de mais precioso. Fugi, vim para São Paulo, mas não deixei minha vida de puta para trás. Trouxe-a comigo.
     Naquela noite, aquele rapaz tímido seria apenas mais um cliente. Levei-o para o quarto, o meu quarto. Despi-me sem dizer nada. Na imagem refletida no espelho vi meu corpo caído, sem graça. Pensei em chorar, mas não tive tempo, pois o rapaz logo me jogou na cama, me colocou de quatro e me fodeu o rabo, grunhindo como um porco.

 

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