Leia texto da poeta e tradutora Larissa Lins
Leia texto da poeta e tradutora Larissa Lins

Uma crise no sistema literário brasileiro: instâncias de legitimação, mercado e previsibilidade
Larissa Lins
Vi um autor conhecido dizer que se considera fracassado por não conseguir sobreviver puramente do ofício de escritor. Não se tratava de alguém sem circulação, sem leitores ou sem reconhecimento: era um nome publicado, lido, adaptado para o cinema, legitimado por instituições culturais. Ainda assim, a palavra escolhida para descrever o que sente foi fracasso. Essa confissão individual, que relata o sofrimento de um autor consagrado, evidentemente não pode resumir a experiência de todos os escritores brasileiros. Mas ela me levou a pensar sobre a contradição, ou melhor dizendo, sobre uma espécie de fratura exposta, que condiciona as circunstâncias de boa parte dos que se arriscam a viver de literatura no Brasil: a tensão entre o prestígio simbólico e a ausência de sustentação material. No nosso país, a literatura pode produzir aura, pertencimento, distinção e circulação social; pode abrir portas, conferir legitimidade e construir reputações. Ainda assim, raramente produz as condições mínimas para que a maior parte de seus trabalhadores viva daquilo que cria.
Essa dissociação me interessa porque escolhi trabalhar com livros e porque tento, ao mesmo tempo, cultivar uma mentalidade crítica para não me deixar capturar inteiramente pela mitologia do próprio mercado editorial. É muito fácil confundir reconhecimento com valor, visibilidade com leitura, circulação com permanência, prestígio com qualidade estética. É muito fácil se deslumbrar. O mercado do livro nos educa, muitas vezes, a aceitar essas equivalências como naturais. Mas talvez seja justamente aí que a crítica precise se impor.
Tenho pensado, por exemplo, nas diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos desde que vim para cá. Observar o mercado estadunidense, que também é desigual, competitivo, racializado, classista e atravessado por relações de poder, ajuda a iluminar certas deformações do nosso campo literário. Em ambos os países há concentração, precariedade e disputa por visibilidade. A diferença parece estar, contudo, em parte, na maneira como prestígio e legitimidade se distribuem (ou deixam de se distribuir) entre instituições, comunidades de leitura, pequenas editoras, revistas, universidades, residências, fundações, festivais e redes críticas.
No Brasil, o campo literário ainda me parece excessivamente concentrado em torno de poucos centros de consagração. Certas editoras, algumas pertencentes a grandes conglomerados que sequer são brasileiros, certos prêmios, festivais, suplementos, programas universitários e círculos intelectuais funcionam como instâncias permanentes de legitimação mútua. Não é que esses espaços sejam irrelevantes ou que tudo o que passa por eles seja artificial. O problema é que, quando poucas estruturas concentram a capacidade de chancelar o valor de uma obra, elas passam também a estreitar o próprio horizonte do que pode ser lido como literatura importante. Os mesmos nomes circulam eternamente pelos mesmos espaços, apresentados como se cada nova aparição fosse descoberta, quando muitas vezes é apenas continuidade... O marketing insiste na repetição como se a repetição fosse prova de grandeza. Um autor aparece em listas, mesas, prêmios, entrevistas, suplementos, clubes de assinatura, vitrines e catálogos; pouco a pouco, a insistência passa a simular evidência. Some-se a isso o fato de que, em geral, são quase sempre os mesmos nomes. Não sei quanto aos demais leitores, mas, em mim, essa repetição excessiva tende a gerar mais afastamento do que desejo de aproximação da obra.
É óbvio que grandes obras podem ser publicadas por editoras prestigiosas. É claro que prêmios podem e devem reconhecer trabalhos decisivos. É claro também que escritores reconhecidos não devem ser punidos por terem alcançado leitores. A crítica que proponho não é moralista, nem parte da suspeita ingênua de que todo reconhecimento é ilegítimo. O problema talvez esteja em outro ponto, quando a circulação passa a anteceder a leitura porque a chancela institucional substituiu a experiência estética. Assim, o prestígio passa a funcionar como atalho para o julgamento e a literatura é consumida por mera adesão, modismo ou pertencimento, e não por uma relação crítica com a obra.
Mas eu não sei se sou regra. A ideia de grife em geral pesa muito entre leitores brasileiros. Publicar por determinado selo continua funcionando, em muitos casos, como uma certificação automática de valor. E, quando isso acontece, a leitura se torna terceirizada, aprende-se a confiar mais na aura de um selo, de um prêmio, de um acadêmico influente, de uma instituição consagrada (certamente localizada no Sudeste do Brasil e frequentada por determinadas elites brancas), de uma suposta curadoria, ou de determinado circuito social, do que no próprio contato com a linguagem. O julgamento estético passa a ser mediado por instâncias de legitimação que, antes mesmo da leitura, já organizam o desejo de consumo, a expectativa e a reverência diante do texto.
E, quando a precariedade é a ordem, os vícios se intensificam. Num campo em que quase ninguém vive do que escreve, a disputa por visibilidade, chancela e sobrevivência simbólica tende a se tornar ainda mais feroz. A chancela do que é a tal boa literatura, então, passa a operar sob uma lógica bastante viciada e tudo vai perdendo um pouco o encanto.
Observar com atenção a lógica interna desse meio, suas relações de amizade, redes em círculos acadêmicos, afinidades de classe, apadrinhamentos, heranças intelectuais, repertórios compartilhados, mecanismos de circulação e convites recíprocos, desfaz bastante da fantasia meritocrática que sustenta a aura do que seria o tal sucesso de uma obra. Não porque tudo se reduza a cálculo ou conspiração. Quase nunca é tão simples.
A qualidade estética precisa ser tratada com mais complexidade. Ela não se reduz a gosto pessoal, nem a uma soma de critérios técnicos supostamente neutros. Em literatura, ela pode envolver incontáveis fatores, como invenção formal, densidade de linguagem, força imagética, elaboração rítmica, complexidade de pensamento, potência simbólica, singularidade de voz, inteligência composicional e capacidade de produzir novas experiências sensíveis e intelectuais no leitor. Mas nenhum desses critérios existe fora da história. Nenhum deles é percebido do mesmo modo por todos os leitores, em todos os tempos, em todas as classes sociais, em todas as regiões e instituições. Isso não significa afirmar que toda avaliação estética seja falsa, arbitrária ou mera encenação de poder. Seria outra simplificação. Há obras que nos transformam porque inventam uma forma de dizer o que ainda não sabíamos escutar. Há livros que reorganizam nossa percepção do mundo, que deslocam a língua, que produzem pensamento onde antes havia fórmula. O ponto é que a percepção desse valor é mediada por instituições, repertórios, hábitos de leitura, formação cultural e acesso. Uma obra pode ser formalmente radical e permanecer invisível porque não passou pelas portas certas; outra pode ser recebida como ousada apenas porque já chega protegida pela autoridade de quem a apresenta.
E aí a fronteira entre valor estético e capital simbólico se embaralha, e o risco é que a literatura passe a confirmar expectativas já consagradas em vez de alargar a experiência do sensível. O mercado chama de qualidade aquilo que sabe vender como qualidade. Chama de novo aquilo que já foi testado em outro lugar. Chama de risco aquilo que, na verdade, já foi parcialmente domesticado por tendências, catálogos e circuitos estrangeiros. A crise do mercado editorial brasileiro, para mim, tem muito a ver com essa disposição à repetição. Em vez de apostar de maneira consistente em risco estético, renovação formal e descoberta de novas vozes, parte significativa do mercado parece operar por reciclagem: importa pautas depois que elas já foram legitimadas, reproduz tendências que não raro chegam com atraso e mantém em circulação nacional os mesmos nomes de sempre. A tradução cultural, que poderia ser uma forma de diálogo, vira muitas vezes mimetismo. O internacional deixa de ser troca e passa a funcionar como autorização.
E não há problema algum em ler o mundo, traduzir o mundo, conversar com o mundo. A literatura sempre foi atravessada por deslocamentos, influências, contaminações e encontros. O problema é quando o mercado brasileiro parece confiar mais no que já foi validado pelo Norte global do que naquilo que ainda está sendo elaborado dentro do próprio país. Essa lógica empobrece a leitura e também empobrece a imaginação editorial. O mercado passa a demandar obras que pareçam novas sem ameaçar demais seus mecanismos de reconhecimento. Quer o desconforto administrável, a diferença com sinopse vendável, o risco com selo de segurança. A literatura, nesse processo, perde parte de sua força indomesticável.
O paradoxo é que muitas das experiências mais vivas aparecem justamente onde há menos dinheiro, menos publicidade e menos proteção institucional. Não raro, são editoras independentes que assumem os maiores riscos: poesia experimental, tradução literária de obras vanguardistas, livros híbridos, autores iniciantes, projetos difíceis de enquadrar, obras que não se comportam bem dentro da lógica de nicho. Muitas vezes encontro mais vitalidade curatorial nesses espaços do que em editoras maiores cercadas por enorme capital simbólico. Mas vitalidade não paga gráfica, distribuição, aluguel, equipe, direitos autorais, divulgação, presença em livrarias, tempo de trabalho. E, claro, dificilmente também conquista prêmios.
Por isso, elogiar a independência sem discutir suas condições materiais seria apenas romantizar a precariedade. A pequena editora que arrisca, a tradutora que pesquisa por anos, o crítico que mantém uma revista quase sem recursos, os autores que publicam fora dos centros de poder, a mediadora que forma leitores em uma cidade sem livraria: todos esses agentes participam da vida literária do país, mas raramente recebem a mesma chancela simbólica ou material que os circuitos já estabilizados. Que estruturas permitem que a boa literatura seja encontrada, lida, debatida e preservada?
No Brasil essas questões passam violentamente por classe social e desigualdade regional. Quem consegue escrever com tempo? Quem consegue frequentar oficinas, universidades, festivais, lançamentos, residências? Quem pode circular entre São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba? Quem tem capital cultural herdado, repertório familiar, biblioteca em casa, fluência em línguas estrangeiras, disponibilidade para viagens, acesso a professores, orientadores, amigos editores, jornalistas, curadores? Essas perguntas não servem para desqualificar autores e outros profissionais bem inseridos que vieram de meios privilegiados. Servem para tornar visível aquilo que costuma aparecer como mérito puro. Em um país brutalmente desigual, o selo de autenticação de qualidade nunca chega sozinho. Ele chega acompanhado por território, raça, gênero, redes, tempo, dinheiro, repertório e autorização simbólica. A obra pode ser extraordinária, mas sua possibilidade de circular depende de condições que extrapolam a página.
Não posso deixar de enfatizar a evidente concentração do poder entre Sul e Sudeste do país como parte central desse problema. Por que tantas trajetórias brasileiras ainda precisam passar por esses centros para serem reconhecidas como nacionais? O que acontece com autores do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste e das periferias urbanas quando sua obra só se torna legível depois de receber uma chancela externa ao seu próprio território? Quantas literaturas são lidas como regionais, locais, específicas ou periféricas antes de serem autorizadas a entrar no debate mais amplo sobre forma, linguagem, pensamento e estética? A palavra regional, aliás, funciona como um modo elegante de rebaixamento. O escritor situado no eixo de prestígio costuma ser lido como universal; o escritor fora dele precisa carregar o peso explicativo de seu território. Sua obra é convocada a representar uma paisagem, uma comunidade, uma ferida social, uma identidade. Enquanto isso, a literatura produzida nos centros de poder pode aparecer simplesmente como literatura. Essa assimetria também interfere naquilo que chamamos de qualidade literária, porque define antecipadamente o tipo de ambição que se permite atribuir a cada obra.
Representatividade é uma demanda política legítima. Comunidades historicamente excluídas do campo literário têm razão em exigir visibilidade, presença, reconhecimento, condições de produção, remuneração, acesso à publicação, circulação crítica e permanência. Não se corrige uma história de silenciamento dizendo apenas que a estética deve ser livre de identidades, como se as ideias de universalidade e cânone não tivessem sido construídas, por muito tempo, a partir de lugares sociais específicos. Mas existe uma diferença decisiva entre representatividade como demanda política e representatividade como estratégia mercadológica esvaziada. Uma identidade passa a valer enquanto está na moda, enquanto organiza vitrines, mesas, catálogos, chamadas de edital, campanhas de lançamento e discursos institucionais. Essa lógica é especialmente perversa porque captura demandas reais e as devolve como embalagem. Comunidades vulneráveis reivindicam reparação, escuta, redistribuição de poder, formação de leitores, acesso a recursos e transformação das condições de produção. O mercado responde com uma mesa temática, uma campanha, uma palavra-chave, com o direito à permanência de uma panelinha. Sabe, quando feminismo vira chá de dondoca? Não é feminismo. É reserva de mercado. O tema se faz presente, mas a estrutura hierárquica das engrenagens do poder nitidamente não se move. Isso fragiliza demandas políticas importantes porque desloca a atenção das condições estruturais para a aparência da inclusão. Um campo literário verdadeiramente ampliado não se mede apenas pelo número de identidades presentes em uma lista (embora esse número importe). Mede-se também por quem detém poder de decisão, por quem tem acesso a dinheiro, tempo, crítica, edição cuidadosa, tradução, circulação nacional, internacionalização, formação continuada e permanência. Ao mesmo tempo, seria injusto, também, exigir que todo agente de um grupo historicamente excluído produzisse apenas ruptura formal ou manifesto político. A liberdade estética inclui o direito à experimentação, à contradição, à delicadeza, ao fracasso, ao humor, ao silêncio, ao excesso, ao banal, ao hermético (eu particularmente adoro o hermético), ao popular, ao estranho. O que precisa mudar não é a obrigação individual do autor, mas a estrutura de leitura que decide antecipadamente quais corpos podem ser complexos e quais devem ser pedagógicos.
O que estou tentando dizer com tudo isso é que precisamos reconhecer que qualidade literária depende de um campo mais justo, mais amplo, mais descentralizado e mais disposto ao risco. E no Brasil isso não parece estar acontecendo.
A minha impressão, é claro, é totalmente subjetiva, mas, nos Estados Unidos, para retomar a comparação, embora o sistema também seja desigual, existe uma infraestrutura cultural que me parece mais ampla, uma vez que existem mais revistas, small presses, editoras universitárias, grants, residências, bolsas, leituras públicas, circuitos acadêmicos, fundações. Talvez o diferencial esteja na relação com as pequenas editoras. Aqui, muitas delas ocupam posições intelectualmente respeitadas sem serem percebidas como menores. Certas small presses de poesia e tradução possuem prestígio cultural mesmo funcionando fora do grande mercado comercial. A legitimidade parece mais espalhada entre diferentes instituições e comunidades de leitura. Recentemente teve um grande festival de editoras independentes em New Orleans, por exemplo, totalmente distante de eixos mais previsíveis, como Nova York ou Califórnia. Claro que aqui há um longo histórico de federalismo que não se aplica ao contexto brasileiro, fora a moeda mais forte, o que, sim, deve fazer baita diferença em termos de estabilidade financeira e possibilidades de permanência nos circuitos. Mas o ponto é pensar o que está funcionando e o que não está.
No Brasil, também existem editoras independentes relevantes, revistas inteligentes, coletivos críticos, feiras, clubes, blogs, newsletters, plataformas e mediadores de leitura que fazem trabalho fundamental. Mas a pergunta continua: quem participa desses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem faz curadoria, quem publica, quem resenha, quem traduz, quem é convidado, quem é remunerado, quem consegue repetir sua presença ao longo dos anos? Olhando de longe, tenho a impressão de que muitas redes se renovam menos do que anunciam. Mudam os discursos, mas as posições permanecem concentradas.
A precariedade, claro, ronda toda parte. O capitalismo tardio, a hiperprodutividade, a monetização da atenção, a captura tecnológica do cotidiano e o avanço de linguagens políticas cada vez mais autoritárias atingem o trabalho intelectual em diferentes países. Mas talvez a diferença esteja no grau de dependência em relação a poucas instâncias de validação. Onde há mais redes, a queda em um circuito não significa necessariamente expulsão completa. Onde há poucas portas, quem não recebe a senha certa permanece quase invisível.
É por isso que a fala daquele autor famoso deixa de soar como exagero individual. O fracasso não está no escritor. Está em uma estrutura que produz prestígio sem produzir sustentação, que reconhece sem remunerar, que celebra sem redistribuir, que consagra poucos enquanto torna a permanência de muitos quase impossível. O nome circula, o livro existe, a obra é comentada, mas sobreviver da escrita continua sendo improvável para a maioria de nós. Isso, se chegarmos até lá, a receber um selo de autenticação de qualidade…
Como resolver, então, tudo isso? Chuto que passa pela necessidade de superar essa espécie de cafonice cultural enraizada que condiciona parte do público leitor brasileiro a consumir apenas aquilo que já chega legitimado por uma grife reconhecida.
Mas não são poucos os desafios.
A ideia de grife organiza o desejo. Ela poupa o risco de escolher. Ela entrega um atalho para o julgamento. Ela transforma a leitura em fetiche de pertencimento. Não estamos lendo, estamos sinalizando que sabemos o que deve ser lido. No mundo da economia, isso faz sentido. Indústrias fabricam necessidades, produzem escassez, transformam distinção em produto, criam marcas, ilusões. Mas lidar com isso no campo das artes exige outra orientação. A literatura não deveria existir apenas para confirmar o repertório de quem já sabe se reconhecer nos lugares certos. Ela pode, e talvez deva, atrapalhar a fluidez do consumo. Pode nos obrigar a desacelerar, a desconfiar do brilho institucional, a perguntar pelo que ainda não foi completamente absorvido pelas engrenagens do prestígio.
Talvez uma das formas mais honestas de resistência, para quem cultiva ou deseja cultivar algum senso crítico, seja reaprender a ler sem pedir permissão simbólica. Descobrir pequenas editoras, acompanhar traduções improváveis, sustentar projetos marginais, ler revistas independentes, prestar atenção a catálogos regionais, ouvir mediadores fora do eixo, frequentar feiras pequenas, assinar newsletters críticas, comprar livros que ainda não foram transformados em consenso. Isso não significa abandonar as grandes editoras ou demonizar qualquer forma de reconhecimento. Significa devolver à leitura uma parte significativa da sua liberdade.
Não basta, contudo, jogar a responsabilidade apenas para o leitor individual. Tampouco adianta transformar os agentes bem-sucedidos dessa engrenagem em alvos fáceis (ainda que a tentação seja grande para quem nutre certa verve jacobina). São saídas confortáveis demais que simplificam uma questão que exige crítica mais difícil, a das estruturas que produzem, distribuem e consagram valor. É preciso pensar políticas públicas sérias para que os livros entrem no cotidiano das pessoas, antes de tudo. Sem formação de leitores com senso crítico, bibliotecas vivas, escolas com acervo, professores valorizados, mediação de leitura, circulação territorial e acesso material ao livro, nenhuma crítica à vontade dos leitores (não profissionais) de consumir a grife se sustenta. O leitor não nasce pronto, muito menos nasce em igualdade de condições. Ele é formado por tempo, espaço, encontro, disponibilidade e direito.
Também é preciso haver políticas públicas voltadas à descentralização da distribuição de capital e da concentração de poder no campo literário. Isso passa por incentivo a pequenas editoras em diferentes regiões do país, por programas de aquisição pública que contemplem diversidade territorial e estética, por apoio a revistas, sites, blogs de crítica, newsletters e plataformas que não dependam exclusivamente da lógica do algoritmo (seja lá qual for a plataforma dele), por editais menos burocráticos, por financiamento a feiras, festivais, clubes de leitura, residências, traduções, circuitos de circulação de autores e projetos de mediação. Passa, sobretudo, por reconhecer que literatura não se fortalece apenas com lançamento: ela precisa de cadeia, tempo e continuidade.
E, isso tudo, fora do eixo tradicional. A circulação de autores para além do Sul e do Sudeste precisa deixar de ser gesto ocasional e virar política de campo. Não basta convidar um escritor de fora do eixo para uma mesa temática e depois devolvê-lo ao isolamento. É preciso criar condições para que obras circulem entre regiões, para que críticos de diferentes lugares sejam lidos, para que editoras regionais tenham distribuição, para que universidades dialoguem com produções locais sem folclorizá-las, para que bibliotecas comprem livros de catálogos diversos, para que feiras não funcionem apenas como vitrines de nomes já consagrados.
E, por fim, mas não menos importante: é preciso valorizar materialmente artistas e escritores brasileiros vivos. Inclusive mulheres, viu? As vivas, e não apenas as boazinhas. Agentes de prêmios, curadores, organizadores de feiras literárias e críticos adoram celebrar a genialidade de mulheres intensas, desde que já estejam mortas. Mulheres vivas, quando interessantes demais, costumam incomodar. Sustentar a genialidade de um homem difícil, excêntrico ou ególatra ainda é algo que o meio cultural frequentemente tolera, às vezes até romantiza. Mas uma mulher indomesticável rapidamente passa a ser percebida como problema. O mercado prefere as dóceis, as administráveis, as que não criam atrito, não tensionam o ambiente e, sobretudo, não desorganizam hierarquias. Mulheres mortas, em geral.
Bem, falei dos Estados Unidos em contraste neste texto porque, neste momento, escrevo daqui. Mas existem muitos países cujas literaturas conquistaram maior circulação internacional nas últimas décadas. Argentina, Uruguai, México, Noruega, Coreia do Sul, China, são alguns que consigo pensar agora que, guardadas as diferenças históricas, econômicas e culturais de cada contexto, talvez valha a pena olhar com mais atenção. Nenhum campo cultural se fortalece apenas pela espontaneidade do mercado. A literatura que chega ao mundo raramente chega sozinha. Ela costuma ser acompanhada por estrutura, diplomacia cultural, continuidade institucional e projeto coletivo. O Brasil, com sua força linguística, territorial, histórica e imaginativa, poderia ocupar outro lugar mais interessante na circulação internacional da literatura. Mas isso exigiria tratar cultura como parte da vida intelectual, econômica, simbólica e diplomática do país. Países que exportam literatura, cinema, música e pensamento exportam modos de presença no mundo. Exportam memória, conflito, forma, língua, imagem, imaginação. E isso não acontece apenas por talento individual. Talento sem estrutura vira exceção. Estrutura sem risco vira previsibilidade. O campo literário precisa dos dois: investimento e imaginação. E a indústria da cultura pode movimentar muito dinheiro. Por que não reformular essa indústria focando na nossa literatura?
Essa exigência pela valorização deve passar por toda a cadeia do livro: escritores, tradutores, editoras independentes, preparadores, revisores, designers, críticas literárias, mediadoras de leitura, livrarias, bibliotecas, revistas culturais, professores, pesquisadores, distribuidores e todas as pessoas que trabalham diariamente para manter a literatura circulando. Quando essa cadeia é invisibilizada, a obra aparece como produto isolado e o autor como gênio solitário. Detesto a palavra gênio. Isso é outra ficção conveniente. A literatura é trabalho. Trabalho coletivo, infraestrutura, tempo acumulado e disputa pública.
O mundo atravessa hoje uma ofensiva generalizada contra as Humanidades. Vemos a desvalorização simbólica e material de quem trabalha com literatura, filosofia, artes, tradução, pensamento crítico, educação e produção cultural de maneira ampla. Em um cenário dominado pela hiperprodutividade, pela tecnocracia e pela monetização imediata, áreas ligadas à reflexão crítica e à imaginação passam a ser tratadas como descartáveis ou improdutivas. Precisamos ir na contramão dessa lógica para reivindicar a literatura como uma das formas pelas quais um país pensa a si mesmo. A literatura produz linguagem para aquilo que ainda não encontrou lugar no discurso público. Ela elabora memória, conflito, desejo, fracasso, violência, beleza, contradição. Reduzi-la a produto de catálogo, selo de prestígio ou etiqueta identitária é amputar sua potência.
A literatura mais viva nem sempre nasce nos lugares mais legitimados. Às vezes, ela sobrevive justamente apesar deles. Mas não deveríamos nos contentar com isso, que ela apenas sobreviva. Um campo literário menos previsível, menos concentrado e menos submisso à ideia de grife precisaria criar condições para que o risco estético não fosse exceção heroica, para que a diferença não fosse moda passageira, para que a representatividade não fosse embalagem, para que a qualidade literária não fosse confundida com proximidade dos centros de poder.
E, sem romantizar a angústia de viver dentro de um sistema marcado por instabilidade, concentração de poder e precarização generalizada (mesmo nos grandes centros, há incontáveis casos e acasos para ilustrar), deixo aqui um singelo viva a quem resiste. E também um pedido: que essa resistência deixe de ser destino individual e se transforme, finalmente, em estrutura compartilhada.

Larissa Lins nasceu em Fortaleza, em 1989. Doutoranda e mestra em Estudos da Linguagem (PUC-Rio), com diversas especializações em Tradução (PUC-Rio, DBB e FGV), é visiting researcher no Departamento de Filosofia da Texas Tech University (EUA) e atua como tradutora do inglês e do francês, além de também ministrar aulas e oficinas. Seu livro de estreia em poesia, Ardósia (Urutau, 2022), foi eleito um dos melhores do ano pela revista 451. É editora de revistas acadêmicas e colaboradora de casas editoriais independentes, como Nauta, Macabéa Edições e Tutameia.
