A primeira edição desta antologia de contos homoeróticos intitulada O amor dorme no peito é constituída por autores que habitam, sobretudo, o Norte e o Nordeste do Brasil, assim como em outras regiões. Pensamos em fazer o movimento inverso – do comumente –, ou seja, fazer uma reunião a partir do Norte do país, estando cada um em sua cidade de trabalho e estudos, origem e vivências: Genisson, Parauapebas e Cametá; Marcos, Belém e Ponta de Pedras, ambas no Pará. A nossa intenção, dois amazônidas, um do Marajó (PA) e outro de Cametá (PA), foi de pôr em relevo vozes que não estão no “centro”, muito menos nas “margens”, mas nessa geografia dos afetos e produções, reivindicando espaços e possibilidades. Isto é, de lugares historicamente irradiadores de uma literatura cheia de urgência e beleza, mas que muitas vezes são tratados como fazedores de literatura regional e/ou militante, em um sistema que tenta reduzir nossas produções e percepções de mundo. Uma escrita que muitas vezes enfrenta diversas dificuldades para se fazer lida e para participar dos principais eventos literários do país.
Os contos se constroem a partir dos dilemas do universo homoafetivo e erótico, característica que faz parte das identidades dos autores aqui apresentados e que ainda é considerada crime passível de morte em muitas sociedades que condenam, torturam e estigmatizam aqueles que não pediram para nascer do jeito que são, ou seja, os que se deitam com outros homens, fazendo-se ainda mais homens, mas que se aceitam e que só querem ser plenos, assim como todo mundo.
Nesse ínterim, os contos passeiam pelo primeiro amor; por aventuras no trânsito da cidade ou em uma zona rural distante; por traições e desejos suprimidos durante um final de semana; pela decepção de ser ferido por quem se ama; pelo suor que atravessa o pescoço; pela porra que desce o ralo. Amar e ser amado, essa força que nos tira e nos coloca no chão, que transborda, tira as direções, ultrapassando os medos, as dores... É o que todos merecemos.
Não podemos deixar de falar da curadoria e dos convites. De princípio, contatamos os autores que já conhecíamos e lidos por suas produções voltadas para essa temática e por assumirem e reivindicarem esse lugar-debate social-político no fazer literário. O segundo momento, após os contatos iniciais, foi o convite duplo de indicar outros autores que poderiam se encaixar na proposta da antologia, e assim fizemos. Sabemos que podem ter ficado excelentes autores fora da antologia, dadas as nossas limitações, mas nos esforçamos muito por algo que fosse o mais amplo possível, que mostrasse vozes de vários espaços e lugares desse imenso país.
Outra coisa que vale a pena dizer é que não fizemos uma chamada aberta. Foi um processo quase de formiguinha, conversando um por um com os autores. Depois veio a questão editorial. Apresentamos a proposta para a Nauta e fomos muito bem recebidos desde nossa primeira reunião de alinhamento. Ficamos profundamente tocados em como o editor abraçou a causa e ficou feliz com o projeto. Pois sabemos que ainda há muita dificuldade de escoação desse tipo de proposta. A ideia partiu do Marcos, que convidou logo em seguida o Genisson, que não apenas aceitou, como movimentou muito todo o projeto. O que poderia ter ficado no campo das ideias foi ganhando corpo com o entusiasmo de Genisson.
Outro ponto relevante é quanto à escolha do gênero: optamos pelos contos, pois Marcos é bem mais dos poemas, e Genisson, por outro lado, da prosa – especialmente dos romances. Então pensamos os contos como uma opção de meio de campo, em que ambos poderiam somar e trazer sua colaboração, leitura e curadoria. Nessas breves narrativas, estamos lado a lado, sonhando junto e buscando possibilidades maiores.
O título deste livro foi emprestado do poema “El amor duerme en el pecho del poeta”, presente em Sonetos del amor oscuro, do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936). Esta é uma singela homenagem a este autor que teve sua vida encurtada durante a Guerra Civil Espanhola e que amava homens, assim como milhares de pessoas espalhadas por este vasto mundo e que só querem ser respeitadas e ter o direito de aproveitar a vida do jeito que lhes convém.
Ficamos pasmos, pois estes contos são um luxo. Por isso agradecemos a cada autor que tornou possível esta coletânea, bem como ao Marcelo Nunes, editor da editora Nauta, uma pessoa destruidora e que embarcou conosco nesta jornada carregada de leques, purpurina e lacração.
Uma boa leitura a quem ousar segurar este babado, e que a deusa, o amor e o glitter estejam convosco e no meio de nós, tá, meu bem! Um coió a todo e qualquer tipo de preconceito!
- Marcos Samuel Costa e Genisson Paes